Noite fria e chuvosa de segunda-feira.
De volta a cidade "xis" estava lendo seus e-mails quando "Linda" o chamou para conversar. Na verdade desabafar, e desabafou.
Falou tudo o que estava preso na garganta, soltou todos os pensamentos, seus "achismos", se colocou numa posição como vítima de "xis", negou a integridade de sua amizade e ofendeu muito como se isso a libertasse, faltando mesmo chamá-lo de lixo. Mas nem precisara. Com tantas palavras lançadas, lixo seria elogio.
E lá fora chovia, com chovia.
E "xis" ficava ali, parado, ouvindo, porque assim era pra ser. E ela detestava esse silencio, esse pedido de silêncio não era dele. Detestava sentir aquilo. Ficou em silencio porque naquele momento ele pedia apenas que ela acalmasse a mente. E "Linda" não deu valor, jantou o "xis". Fartou-se, um verdadeiro banquete.
Ela questionava "xis" sobre os momentos que antecederam o rompimento de seu namoro com "mike". E "xis" não revelava. Não revelava porque a decisão não era dele. Ele não tinha esse direito de dizer, não queria que algo mudasse o futuro se não pelos próprios motivos de Linda. Porque se assim fosse a estoria entre "Linda" e "Mike" nunca estaria definitivamente resolvida, sempre ficaria um resto, uma poeira que seja.
E "xis" perguntava:
- Me diga Linda, você está feliz?
E ela não respondia, apenas ofendia e o ameaçava. Sabia que o mais importante para "xis" era a amizade que permaneceu entre eles e disse:
- "Xis", se você não me contar eu vou perder a amizade com você.
E ele entendia que tudo aquilo não era raiva ou rancor, era outro sentimento. Era o medo de errar novamente.
"Xis" então refletiu sobre todas as palavras de "Linda" disse aquela noite de primavera e deixou ela ter razão. Ele estava sem forças, ela conseguiu destruí-lo. A Grande Tristeza estava alí presente. Ele aceitou o discurso destrutivo de "Linda" e a deixaria em paz, iria para longe, mudaria seus planos profissionais novamente.
Não consegiu dormir. Olhou ao redor, no relógio, pensou e agiu. Pegou suas coisas, deu checkout no flat para voltar a capital. Foi tudo muito rápido, "Xis" é o homem da mochila vazia.
Estava faltando tato e sobrando pensamento. Falta de fotos espalhadas pelo quarto. Memória do que não se pega. Sente. Faltava "Linda" no espaço e sobrava "xis" no tempo.
Depois de tudo isso ele ainda acha muitas coisas, porque o verdadeiro Amor não pode ficar assim, sem final feliz. E como diz a música: "...e até lá, vamos viver, temos muito ainda por fazer, não olhe pra trás, apenas começamos, o mundo começa agora, apenas começamos.."
Ligou o carro, colocou para tocar o CD de uma noite especial e pegou a estrada. Pelo horário foi direto tomar o café da manhã na entidade assistencial o qual ele visitava frequentemente, casa essa que proporcionava moradia temporária a crianças e suas mães que vinham de fora do Estado para tratamento de leucemia. Naquele momento lá era seu único refúgio, seu lar e seu bom dia.
Sabe, tem dias em que precisamos de um tempo para desmontar cada tijolo que está do lado de fora do coração.
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