terça-feira, 23 de abril de 2013

Coração Clandestino III

E naquele dia peguei a ponte aérea de volta para casa. Era o último voo de São Paulo para o Rio e o avião  lotado.

À minha frente, no corredor, vejo uma atriz conhecida (não vou falar o nome) tentando ler um livro. O passageiro ao lado, impiedosamente, a crivava de perguntas. A atriz, simpática e solícita, largou o livro e passou a responder ao questionário do recenseador diletante.

E eu tatuado e vestido com camiseta dos Rolling Stones, olho para o meu notebook revisando os textos do blog - Coração Clandestino - , satisfeito, agradeço o silêncio respeitoso da minha vizinha de poltrona igualmente roqueira. Mas, como diz o ditado, o que é bom dura pouco.

- “E essa história da Ivete Sangalo no Rock’n Rio em setembro, hein?”. - falou
- “Oi?”. - falei tentando acreditar que não era comigo.

 - “Essa história da Ivete Sangalo cantar no Rock’n Rio em setembro...., o que você acha disso?” - ratifica.

Gente, a menina deveria ter uns trinta anos de idade, toda maquiada e usando óculos fashion de aros rosas.

- “O que eu acho da Ivete Sangalo cantar no Rock’n Rio? Acho ótimo”. - eu disse.
- “Mas a Ivete não faz rock! Acho ela linda, o máximo, tudo de bom, mas não canta rock”. - ela disse indignada.

Ai, ai, ai, pensei.....

- “Tudo bem. Rock é um conceito que já incorporou muitas outras linguagens, como o jazz. O que chamamos de rock, hoje em dia, é uma vasta vertente da música pop que mistura ritmos negros, samba, axé, reggae, rap, canções românticas, country music, baladas celtas, funk e até, eventualmente, rock”, explico, como um catedrático entediado. - eu disse.

- “Mas a Ivete não é rock”. - rapidamente devolveu.
- “Tampouco o Rock’n Rio se propõe a ser um festival de rock purista. O Rock’n Rio é um grande evento comercial e precisa de estrelas de primeira grandeza, como a Ivete, para atrair grandes públicos. Não sei se você já era nascida no Rock’n Rio I, mas lá se apresentaram Ney Matogrosso, Gilberto Gil e James Taylor. Estes caras também não são músicos de rock. Que eu saiba”.

- “Mas as coisas mudaram de lá pra cá”. - responde com frases prontas.
-“É verdade, mudaram”, concordo. “As coisas costumam mudar”.

Desvio um olhar de cantinho para meu blog. Ai, ai. 

Minha interlocutora – que até então permanecera olhando para frente, como uma esfinge -, vira-se então para mim e esboça um sorrisinho sarcástico: 

- “Os Rolling Stones também não são mais os mesmos de antigamente…” - dispara, provocadora, os olhinhos brilhando sob as lentes fashion.
- “Nem você. Ou você já nasceu com essa maquiagem e esses óculos in-crí-veis?”. - finalizei.

Não sei se ela concordou, oculta virou-se para a janela do avião e refletiu sem nada dizer.
A questão fica sem resposta e o colóquio desmorona no abismo do silêncio.

Sorrio satisfeito, e retorno à revisão dos textos do meu Blog.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá, deixe aqui seu comentário. Se preferir mande pelo e-mail folhaslaranjas@hotmail.com ou acesse o MSN.