sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O trem (a partida)

A profissão que escolheu exige muitas viagens, algumas duram alguns dias outras algumas horas. Passa a maior parte do tempo em balcões de check-in, aviões, carros alugados e hotéis. Enquanto para muitas pessoas as filas, revistas pessoais, bagagem, a comida de aeroporto e barrinhas de cereais das companhias aéreas sejam uma tortura, para "xis" só o fazem lembrar o quanto está familiarizado com tudo isso.

"Xis" vivia sua vida profissional de forma automatizada, nunca olhava para o lado ou tentava achar um tempo para sua busca pessoal. Sempre esteve rodeado de pessoas, mas sentia-se sozinho até o momento em que, naquele ano, muitas coisas mudaram sua vida quanto a forma de ver as coisas, acabou por ter uma experiência mágica numa viagem de trem.

Vale do rio São Francisco, foi lá que conheci "xis".

Viajávamos a cada duas semanas para casa. Embarcávamos no avião às 17h15 da sexta-feira chegávamos em São Paulo por volta das 20h. Retornávamos as terças-feiras pela manhã.
Muitas das vezes "xis" aproveitava seu descanso quinzenal indo para qualquer outro lugar, aproveitando que tínhamos o direito, nos dias de folga, em escolher qualquer voo doméstico.

Num dia desses "xis" decidiu ir para a capital mineira e percebeu que não tinha muita coisa para se fazer. Foi até o balcão de informações turísticas e pediu para a atendente um passeio de 2 dias e, por incrível que foi, a moça havia dado a ele uma sugestão de passeio de trem para o Norte de Minas, era uma viagem de 800km. Ele achou aquilo tudo muito estranho já que ela não sabia de onde ele tinha acabado de chegar, e acabou por aceitar afinal, pelas imagens do folder, a paisagem era linda.

Era uma manhã de sábado, início de primavera. Chegou na estação por volta das 11h20, quarenta minutos antes da partida. Comprou o bilhete com direito a cabine dormitório, achou que teria mais conforto. O trem apitou, os trilhos começaram a cantar a música que iria tocar até seu destino. Pela janela olhava as pessoas acenando para seus parentes e amigos (o trem era muito utilizado por pessoas, em sua grande maioria, sem condições de pagar integralmente por uma passagem de ônibus).

Naquele momento algo aconteceu com "xis", um sentimento que nunca havia sentido, era um frio na espinha, suas mãos começaram a transpirar, seu coração batia mais rapidamente. Era um vazio total, uma solidão imensa. Quando fechou os olhos percebeu que estava prestes a ir ao encontro de seu caminho, numa estrada de ferro linear, assim como sua vida.

Percebeu que o início de sua busca estava alí, era o trem.

(continua)


Terminal Ferroviário de Belo Horizonte

Belo Horizonte - Montes Claros
Trecho Rural de BH

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